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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Será intolerância da Igreja Catolica?


Por Zenit.org. - orgão da Igreja - Santa Sé.
Será que a Igreja é homofóbica? Um princípio particular pode tornar-se regra universal?
A relação hetero/afetivo (varão-mulher) é natural? O que é natural? O pressuposto bíblico (gênesistico) 'crescer e multiplicar' reduz a um único tipo de relação social e afetivo entre dois entes? A relação de amor/respeito/tolerãncia e compaixão entre pessoas do mesmo sexo não tem validade? Só há um modelo de família?

Visando contribuir no debate e responder a tais perguntas, segue abaixo um mode pensar: leia e faça um revisão do seu mode compreender.
prof. joaquim



Respeito é uma via de duas mãos

Cristãos hostilizados por manifestar oposição à homossexualidade




Por Padre John Flynn, LC

ROMA, domingo, 7 de junho de 2009 (Zenit.org).– A questão de legalizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo continua a estar em primeiro plano nos debates. Há alguns dias, o Supremo Tribunal Californiano acolheu um referendo que alterou a Constituição Estadual para restringir casamentos a casais heterossexuais.

O referendo invalidou uma decisão anterior do Supremo Tribunal, que resultara na legalização do casamento do mesmo sexo.

Nas semanas que antecederam à última decisão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em três Estados. Como resultado, cinco Estados agora permitem tais casamentos –Massachusetts, Connecticut, Maine, Vermont e Iowa.

Como sublinhou o artigo de 27 de maio do Washington Post, quatro destes Estados estão no Nordeste, e a exceção, Iowa, viu a legalização introduzida através de uma decisão da Suprema Corte, e não por votação do legislativo.

Um elemento importante nos debates sobre a questão tem sido o de liberdade religiosa. Em uma coluna do New York Times do dia 23 de maio, Peter Steinfels comentou que uma proposta para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em New Hampshire tinha estagnado devido ao governador John Lynch insistir em que ele iria apenas assinar o projeto de lei se tivesse mais garantias para proteger as instituições religiosas.

Esta proposta foi rejeitada pela Câmara dos Representantes. A experiência em New Hampshire pode muito bem influenciar debates em outros estados, como Nova York, Steinfels observa.

Liberdade religiosa

Quanto à introdução do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ela ameaça a liberdade religiosa? Uma análise recente da questão veio de perguntas e respostas no fórum patrocinado pela Pew Forum on Religion and Public Life. Na transcrição, publicada em 21 de Maio, professores do The George Washington University Law School discutiram os possíveis conflitos.

Opositores ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, eles observaram, estão preocupados que a pregação contra a homossexualidade nos sermões torne-se uma ofensa criminal.

Outras preocupações envolvem instituições religiosas, como hospitais e universidades, que estão temerosos em relação a serem obrigados a fornecer os mesmos benefícios aos casais do mesmo sexo, como atualmente fazem para os casais heterossexuais.

Este não é apenas um exame teórico. Em 2006, a Catholic Charities em Massachusetts teve de parar seu serviço de adoção, pois as leis estaduais antidiscriminação foram alteradas, tornando obrigatória, para as agências, a oferta de crianças para adoção por casais do mesmo sexo.

Outra área de preocupação envolve empresas privadas e pessoas que tenham objeções religiosas ao casamento do mesmo sexo. Isto poderia envolver aqueles que prestam serviços para casamentos ou alugar imóveis.

Em seus comentários, os professores admitiram que a situação legal de tais objeções religiosas não foi examinada. Batalhas judiciais, até agora, têm se concentrado, principalmente, sobre a questão de saber se os Estados devem reconhecer o casamento do mesmo sexo.

Proteção necessária

Até agora, os religiosos opositores não tiveram um bom desempenho nas decisões judiciais, de acordo com um artigo publicado no dia 10 de Abril pelo Washington Post.

Entre os exemplos citados foram os seguintes:

-- Uma fotógrafa cristã foi forçada pela Comissão dos Direitos Civis do Novo México a pagar US$ 6.637 em custos de advogado depois que ela se recusou a fotografar a cerimônia de compromisso de um casal do mesmo sexo.

-- Uma psicóloga na Geórgia foi despedida depois que ela se recusou, por motivos religiosos, a aconselhar uma lésbica sobre seu relacionamento.

-- Doutores em fertilização, cristãos, na Califórnia, que se recusaram a inseminar artificialmente uma paciente lésbica foram barrados pelo Supremo Tribunal do Estado por invocar as suas crenças religiosas para recusar o tratamento.

-- Um grupo de estudantes cristãos não foi reconhecido em uma faculdade de direito da Universidade da Califórnia pelo fato da agremiação negar filiação a quem pratica sexo fora do casamento tradicional.

-- Um site de namoro on-line, eHarmony, criado por um cristão evangélico, Neil Clark Warren, teve de aceitar prestar serviços a homossexuais, após ser processado por um homem de Nova Jersey, que acusou o site de discriminação.

Um artigo publicado no dia 3 de maio no “Los Angeles Times” deu um parecer que apelou para uma maior proteção jurídica para os opositores, por motivos religiosos, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Robin Wilson, um professor da Escola de Direito da Universidade Washington & Lee, argumentou que, até agora, nenhum Estado tem fornecido garantias suficientes de liberdade religiosa ao legalizar casamentos do mesmo sexo.

Wilson admitiu que a legislação em Connecticut e Vermont continham disposições para a objeção de consciência, mas as cláusulas ainda não fornecem uma proteção suficiente para as pessoas, tais como os conselheiros matrimoniais, decoradores, e fotógrafos.

"Devido a essas leis, muitas pessoas poderiam ter de escolher entre a consciência e o ganha pão", disse Wilson.

Conflitos no emprego

A Grã-Bretanha também tem vivido muitos conflitos e batalhas jurídicas sobre este assunto. Recentemente as Igrejas manifestaram receio de que as novas leis antidiscriminação vai obrigá-las a aceitar pedidos de emprego por homossexuais, informou o jornal Telegraph, no dia 20 de maio.

A legislação entrará em vigor no próximo ano, mas até recentemente as Igrejas esperavam uma proibição. Esta expectativa foi derrybada quando em uma recente conferência, Maria Eagle, vice-ministra das igualdades, disse que a lei irá abranger praticamente todos os empregados das Igrejas.

"As circunstâncias em que as instituições religiosas podem praticar qualquer coisa menos do que a plena igualdade estão longe e são poucas", disse ela, de acordo com o Telegraph.

A Cláusula da Igualdade, ainda a ser definitivamente aprovado pelo Parlamento, dá uma interpretação restrita para os papéis a partir do qual é possível excluir homossexuais com base em objeções religiosas. Seria limitado somente para aqueles que levam a liturgia ou passam a maior parte de seu tempo ensinando a doutrina.

Cristãos que se opuserem à homossexualidade estão sendo cada vez mais pressionados na Grã-Bretanha. Essas pessoas foram descritas como "homofóbicos retardados" pela Associação Britânica para a Adoção e Fomento, uma agência estatal de financiamento; reportou o jornal Daily Mail no dia 14 de maio.

A agência estabelece regras e organiza a formação de trabalhadores sociais em todo o país, de acordo com o artigo.

O Daily Mail citou Patricia Morgan, autora de um estudo de adoção gay, que disse: "É lamentável que eles não queiram discutir os prós e os contras da adoção gay. Eles só se preocupam com os casos de abusos."

Conflitos no Trabalho

Uma série de casos recentes demonstram que os cristãos enfrentam o risco de perder os seus empregos se expressarem as objeções de suas consciências. David Booker, um trabalhador de caridade, foi suspenso por duas semanas na sequência de uma conversa que teve com outro membro da chefia em que ele falou de sua oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo; reportou o jornal Telegraph em 11 de abril.

Booker insistiu que ele não é um intolerante e apenas tinha se limitado a manifestar a sua opinião pessoal. Seu colega também tinha assegurado que ele estava expressando suas opiniões e que elas não foram ofensivas, acrescentou o artigo do Telegraph.

Em 22 de março, o Telegraph havia relatado o caso dos proprietários de um hotel, Pedro e Hazelmary Bull. Um casal do mesmo sexo processou os proprietários cristãos de um hotel à beira-mar que se recusaram a alugar-lhes um quarto.

Novas regulamentações acrescentadas à Lei da Igualdade, em 2007, tornam ilegal recusar a uma pessoa mercadoria ou acessórios em razão da sua sexualidade.

Outro caso envolveu uma escrivã empregada pelo Conselho Islington no Norte de Londres. Lillian Ladele se negou a realizar cerimônias de parceria civil do mesmo sexo. O Conselho ganhou um recurso contra uma decisão anterior que o tinha considerado culpado de discriminação contra Ladele e suas opiniões; relatou a BBC no último 19 de dezembro.

A sentença fez notar, contudo, que nem todos do conselho da equipe de gerenciamento trataram as crenças de Ladele com sensibilidade.

Durante décadas defensores dos direitos dos homossexuais têm feito apelos à tolerância e compaixão. Qualidades que infelizmente faltam agora que eles estão cada vez mais a ganhar reconhecimento legal

Um outro pensar para outro viver


O texto abaixo é um libelo fruto da reflexão da prática de um pensador popular afinado com a educação popular. Acesse o portal do Carlos Brandão que é um primor. (www.sitiorosadosventos.com.br)

Segue o 10 artigo sobre transciplinaridade da vida.
Abraço.
Joaquim P. Lima - Londrina-Pr.
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UM OUTRO PENSAR PARA UM OUTRO VIVER
O texto e comentários do manifesto da transdisciplinaridade[1]
Carlos R. Brandão.
preâmbulo
Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas e não-acadêmicas leva a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível qualquer visão global do ser humano;
Disciplinas, matérias acadêmicas, áreas específicas de competência do saber, setores especializados e ultra-especializados do conhecimento ...
O modelo atual de criação de saber especializado gera uma expansão crescente de galhos e de ramos científicos e não-científicos tendentes a uma perda de contato com troncos unificadores. Troncos de conhecimento e de sensibilidade destinados uma crescente compreensão plena e profunda dos mistérios da Vida e do Universo em todas as suas dimensões. E também troncos de saber e sensibilidade com as suas raízes originárias na vocação humana de criar sentido através do conhecimento.
O saber múltiplo, multifocal e pluri-especializado acumula conhecimento compartimentado e fragmenta o seu poder de gerar sabedoria. Há uma progressiva perda de três fundamentos essenciais para uma compreensão do mistério e do sentido do todo unificador em todos os planos da existência: a integração entre diferentes campos e domínios das diversas ciências; a interação entre tipos e vocações do saber, como os da ciência, os da filosofia, os da arte, os da espiritualidade e os da religião; a indeterminação, isto é, o sentido de que em todos os seus planos e dimensões, o existente dado ao conhecimento não é plano, não é mecânico, não é mecanicamente previsível e não é redutível a fórmulas finais de explicação.
Considerando que somente uma inteligência capaz de abarcar a dimensão planetária dos conflitos atuais poderá fazer frente à complexidade de nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual de nossa espécie.
Só se preserva o que se ama. Só se ama o que se compreende. Só se compreende aquilo a respeito do que se possui uma forma consistente e confiável – mesmo quando provisória - de conhecimento. Ou o que se pode colocar como uma dimensão do mistério da Vida e do Universo a ser um dia compreendida. Mesmo que esta compreensão seja também sempre provisória e aberta a transformar-se, a se tornar mais diferenciada e mais complexa. Só se conhece de maneira verdadeira o que se reconhece como parte, eixo ou relação de teias da complexidade da própria existência e como um momento dos processos contínuos de transformação e de re-criação de tudo o que existe no todo do que existe.
Somente uma nova compreensão, ao mesmo tempo capaz de abarcar o absoluto da individualidade e da diferença, e a criação contínua e diferenciada de totalidades, poderá voltar-se à complexidade da Vida e do Mundo no presente momento, aqui e agora.
Somente uma tal compreensão integrada do mistério do sentido da experiência humana, dos vínculos vitais entre a espécie humana e toda a teia da Vida, das interações entre a Vida e o lar que a abriga, a Terra e, finalmente, entre nosso Planeta e toda a arquitetura do Cosmos, poderá fazer frente ao desafio crescente da perda de qualidade vital em que nos vemos envolvidos a cada dia. E também da sempre presente ameaça de destruição das condições de existência da Vida Humana e de toda a cadeia da Vida na Terra.
Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia.
Nós, seres humanos, seres do mundo da cultura, somos a experiência de Vida no Planeta Terra que de maneira contínua e sempre inacabada está emergindo da e na natureza que nos é dada, em cujo seio vivemos e de que somos parte. Pois nela existimos a partir de nossos próprios corpos, e com os próprios recursos dela, a Natureza, vivemos o dilema de podermos acrescentar vida á vida e de fertilizar continuamente a Terra ou de destruí-la, como lugar-biosfera, capaz de abrigar o milagre da Vida, destruindo a Vida e a nós próprios.
As ameaças de um término por mãos humanas da Vida na Terra-Una, têm o seu princípio na ciência que estamos criando, e na tecnologia que aplica as suas descobertas e se volta sobre a sociedade e a natureza regida, a cada dia mais, por valores de eficácia e de interesse. Temos nos voltado ao mundo natural com o propósito de submetê-lo e de tê-lo produtivamente sob o nosso controle. Isto é o oposto do nos voltarmos a ele como parceiros de uma comunhão fraterna com a Natureza. Isto é, conosco mesmos, com a Vida e com a Terra-Viva.
Lidamos com a tecnologia triunfante, como se ela fosse um arsenal militar. Como se ainda existisse uma “natureza a conquistar”. Os fundamentos da ação social sobre a natureza são os do poder e da manipulação. São, portanto, os da competição e de acumulação crescente e desproporcional aos parâmetros de nossa sobrevivência e nosso bem estar. Lidamos com a natureza como um repertório de mercadorias disponíveis e inesgotáveis, esquecidos de que “o sumo bem é a própria vida” (Berthold Brecht).
Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências sobre o plano individual e social são incalculáveis.
A razão de ser do saber é criar elos de comunicação na corrente da vida em todos os seus planos e em todas as suas dimensões. É criar eixos fraternos de interações fecundas. É gerar de maneira contínua e crescente situações de diálogo entre nós, seres humanos, assim como entre nós e todos os outros seres da Vida, assim como entre a Vida e o mistério da Terra e do Cosmos. Alargar sempre mais as fronteiras do diálogo, eis toda a nossa vocação humana.
É perigosa e potencialmente destrutiva da Vida a associação de um saber mecânico e motivado por interesses de apropriação da natureza, com um aprendizado dirigido a formar pessoas produtivas de um ponto de vista de mercado e de tecnologia manipuladora, em detrimento de um conhecimento complexo e integrado. Um conhecimento generoso, tanto no campo das ciências quanto nos intervalos de fronteiras entre a ciência e outras formas de pensar, sentir e criar. Um tal conhecimento, transformado também na vocação de criarmos programas de ensino-aprendizagem originados em uma educação orientada a formar sujeitos interativamente éticos, reflexivamente complexos e politicamente responsáveis pelo destino de suas vidas, de suas sociedades e de seu Mundo. A produção crescente de conhecimentos destinados a tecnologias manipuladoras e a sua difusão através de uma educação reeducionista e utilitária, estão respondendo por um estreitamento do horizonte de imaginários e de sentidos das ações humanas.
Há, ao lado de um crescendo geométrico de saberes estanques e interessados em resultados de proveito de mercado, uma perda da vocação humana voltada ao imaginário criativo e à ação amorosa. Há um crescente aumento do poder de manipulação de pessoas, de povos e da natureza, ao lado de uma ameaça de desintegração dos eixos de relações complexas e harmoniosas de saber, de valor e de poder entre os seres humanos e entre eles e a Vida. Nós nos vemos mais do que nunca tentados a nos afirmar como “senhores do mundo”, quando podemos nos reconhecer como “irmãos do universo”.
Considerando que o crescimento do saber, sem precedentes na história, aumenta a desigualdade entre aqueles que o possuem e aqueles que são desprovidos dele, engendrando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações do planeta.
Todos os povos da Terra possuem saberes bons e legítimos em suas culturas e como expressões das criações culturais de seus participantes. Mas há um saber que se universaliza e que tende a se apresentar como a forma globalizada e quase única do “saber bom, belo e verdadeiro” entre todos os outros. Ele é o saber múltiplo e diferenciado, mas não ainda complexo, resultante das criações das ciências e das tecnologias do pensamento ocidental – Japão incluído.
Este fato tem gerado um distanciamento geométrico entre uma forma padrão de saber e todas as outras. E tem originado, por causa dos efeitos lógicos práticos e políticos de suas aplicações, um afastamento muito grande entre povos que o detém e povos que não o detém. Entre pessoas que se apropriam de parcelas dele e pessoas a quem não são dadas tais oportunidades.
Ao invés de representar uma grande universalização planetária do conhecimento, através de sua difusão generosa e de sua aberta partilha entre povos e pessoas, a acumulação desigual do conhecimento legítim,o saído principalmente das universidades ocidentais e de centros equivalentes de pesquisa científica, provoca uma desigualdade equivalente às desigualdades não-harmoniosas dos bens materiais – capital incluído – e dos poderes sobre a gestão do presente e do futuro de pessoas e de povos do Planeta.
A desigualdade crescente do poder de criar, acumular, difundir e utilizar o saber, torna o conhecimento humano desigual uma outra forma desnecessária e perversa de poder. Nunca saber representou tanto poder. E nunca o saber esteve tão ameaçado de tornar-se uma propriedade, quando deveria ser sempre uma partilha.
Considerando simultaneamente que todos os desafios enunciados têm a sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode levar, a longo prazo, a uma mutação comparável à passagem dos hominídeos à espécie humana.
Algumas vezes, na trajetória da vida da humanidade passos de quantidade podem se transformar em saltos de qualidade.
Já vivemos isto antes e podemos estar na aurora de algo semelhante. Este “salto” poderia estar no que representaria toda a acumulação diferenciada de saber, assim como as possibilidades crescentes de criação de novas compreensões de tudo, através da interação de diferentes conhecimentos científicos, e na integração entre eles e outros tipos e modos de saberes e de sensibilidades provenientes das artes, das ciências, das espiritualidades, das religiões, ao lado de uma partilha generosa e verdadeira dos saberes e de toda a gama múltipla de suas aplicações. Aplicações não mais dirigidas a uma “conquista” utilitária da natureza, mas a uma comunicação fraterna com ela e entre nós: pessoas, grupos sociais, nações e povos da Terra.
O que soubermos fazer ética e amorosamente com o saber, determinará em boa medida aquilo que aprenderemos a fazer em nome de nosso destino na Terra, em nome do destino da Vida na Terra e em nome da Terra-Viva.
A esperança está em tudo. A esperança deve estar em tudo!
Todos os desafios de destruição, de desigualdade, de exclusão e de de-harmonia têm, como contrapartida nossa: a esperança. A esperança da reconstrução, da igualdade partilhada, da inclusão de todos na felicidade, da re-harmonia entre as pessoas, entre os povos e entre nós, seres humanos, e a vida.
Não fomos consagrados ao mal. Não precisamos destruir para sobreviver, pois o que destruirmos do Mundo Natural de que somos parte, nos destruirá também.
Não estamos devotados à destruição. Somos seres da espera e da esperança. A esperança está sempre adiante, no horizonte dos passos a caminhar, e está no absoluto presente de cada momento. Somos seres destinados a retornar a um sentido pleno de vida abundante, de vida fraterna, de vida plena em todos os planos da Vida. A esperança é o nosso lugar de partida. Ela é a realização completa dos nossos sonhos possíveis agora, e agora ainda provisoriamente inalcançáveis, mas nunca impossível de vire ma ser um real construído por mãos, mentes e corações humanos.. A esperança é o ponto de chegada e é o re-início do caminhar ainda, mesmo depois de haver chegado.
Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento de Arrábida, 2 – 7 novembro 1994) adotam a presente Carta, como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade de espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo signatário desta carta faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional.

artigo primeiro
Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolve-lo em estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.
O ser humano é uma obra aberta. Ele pode estar sempre se recriando. Ele deve estar sempre se recriando. Ele está sempre se recriando.
O ser humano é o autor , ou é um co-autor essencial da obra de si-mesmo.
O ser humano é sempre inacabado e aperfeiçoável, ele depende de si mesmo para tornar-se sempre mais aperfeiçoado.
O ser humano é uma vocação ao diálogo. Pois é no encontro, é na comunicação, é na interação solidária com ele mesmo com os seus outros - outros seres humanos e outros seres da Vida - é no diálogo com o seu Mundo e com os seus mistérios, que ele se realiza a si mesmo, realizando-se com o Outro e no Outro.
O homem não se reduz a fórmulas, não se reduz a definições acabadas, não se encerra na proposta de uma maneira única e formal de ser.
O ser humano é criador de sentidos e significados para um pensamento e para uma existência transdisciplinar.
Qualquer teoria ou qualquer ação social que negue isto, nega a sua própria vocação.

artigo segundo
o reconhecimento da existência de diferentes níveis da Realidade, regidos por lógicas diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível, regido por uma única lógica, não se situa no campo da transdisciplinaridade.
Em qualquer direção o caminho único são múltiplos caminhos. Pois não há um único caminho e não há caminhos únicos.
Eles são sempre vários, podem ser múltiplos e muito diversos, e sempre há caminhos novos a descobrir.
O conhecimento do desconhecido e o re-conhecimento do já conhecido nunca cabem em uma teoria única, em uma única lógica, em uma única vocação do saber.
A Realidade, em qualquer um dos seus planos de existência e de comunicação, é múltipla, é complexa e é diferenciada. Existe em vários planos, em diferentes esferas e entre diferentes situações.
Cada uma de suas unidades de realização – a pessoa humana entre elas –assim como cada um de seus planos, esferas e situações, estão sempre abertos à integrações, a interações e a indeterminações.
Tudo o que há e existe de/ algum modo, em alguma dimensão de algum tempo em algum lugar – ou de um tempo-lugar - tende a interagir em plano interno e externo. Tende a se comunicar e a criar e re-criar velhas e novas formas do existir. Existir é estar sempre criando e sempre criando-se.
E os caminhos para tanto são mais os da descoberta e da invenção do que os do cumprimento formal de leis fixas e pré-determinadas.
Tudo o que é e existe pode realizar-se adiante de um outro modo. Cada passo na escala de qualquer experiência da existência sugere, mas não determina os seguintes. Cada escolha de uma direção apenas aponta para um entre outros rumos e caminhos.
“Caminhante, não há caminho. Se faz caminho ao andar”.

artigo terceiro
A transdisciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar: faz emergir do confronto das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio de várias disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.
O particular deve partilhar o todo, deve compartir integrações, interações e indeterminações na busca da compreensão inacabável de sentidos. Tudo é inacabável e infindo. O particular deve partilhar o Todo diferenciado de tudo e, não, parcelar todas as coisas até esquecer a memória do Todo de tudo de onde proveio. Deve ser um desafio ao encontro de sentidos e de significados entre os diferentes campos e planos do saber e do sentir. Pois assim como as “coisas” existem no real, existem no outro plano do real que é a mente que o contempla e pensa. Pois de igual maneira tudo o que existe e se oferta ao conhecimento humano, existe em planos e em campos crescentes, inter-conectados e inacabáveis de existência.
O espírito transdisciplinar completa e integra o espírito disciplinar.
Não o destroi e nem concorre com ele. Não se interpõe ao interior de cada campo disciplinar. Ele se coloca entre as e além das disciplinas, e busca, através de interações entre elas e integrações para além delas, atingir o lugar de partida desde onde e de maneira irreversível elas se atravessam e se ultrapassam.

artigo quarto
O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas, Ela pressupõe uma racionalidade aberta, mediante um novo olhar sobre a relatividade das noções de “definição” e de “objetividade”. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e o exagero de objetividade, incluindo a exclusão do sujeito, levam ao empobrecimento.
O projeto transdisciplinar não almeja criar uma meta-ciência ou um mega-saber.
Não se trata de proporções e de quantidades. Trata-se de relações e de qualidades. Trata-se de aprender a ver o todo do móvel de imagens e de idéias que pensam o real, antes, através e depois de ver o que está em cada uma de suas gavetas.
Todas as faces do que é real se interligam. Aprendemos isto cada vez mais. Assim também, todos os olhares das faces humanas da imaginação e do pensamento deveriam, através e para além do “ver de cada olho”, abrir-se ao desvendamento de novos cenários, ou dos mesmo cenários percebidos cada vez mais através e além de novos olhares.
As próprias categorias mais essenciais das ciências e da ciência deveriam ser revisitadas. Não para serem superadas e colocadas de lado, mas para servirem a criarmos, juntos, um campo de novos conceitos, de novas definições, de novas inter-conexões. Novas interações entre o vivido e o pensado, entre o pensado e o real, que recoloquem em seus lugares os próprios sujeitos humanos dos processos criativos de construção partilhada de conhecimentos.

artigo quinto
A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação, não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual.
Tudo o que construímos como saber humano e como conhecimentos específicos deste saber é ainda uma pequenina parte do que sempre inevitavelmente restará a saber. Quanto mais certezas alcançamos e possuímos, mais elas nos abrem ao incerto, ao incomensurável do desconhecido. Quando mais conhecido, tanto mais consciência das dimensões inevitáveis e sempre abertas a nos do desconhecido. Pois o desconhecido não é nosso limite, porta fechada ao saber humano. É o caminho sempre adiante, porta aberta á mente reflexiva.
Quanto mais leis científicas, tanto mais a descoberta de uma múltipla, complexa e polissêmica realidade indeterminada, em planos que vão de nossas próprias mentes até a arquitetura do Universo.
Todo o saber de um mesmo campo do conhecimento científico encontra os seus próprios limites em fechar-se e em se estabelecer como um campo especializado e quase sempre fechado e isolado do saber e da experiência do mundo.
A vocação transdisciplinar pede ao imaginário e à inteligência, abertos a perguntas sobre Nós, humanos, sobre a Vida, sobre a Terra e sobre o Universo, três movimento já sugeridos acima. A integração generosa e corajosa entre áreas, campos e especialidades científicas, principalmente na contínua quebra de marcos de fronteira entre as “ciências exatas”, as “ciências biológicas” e as “ciências humanas”. A crescente intercomunicação, sem um eixo de poder central, e, portanto, interativamente criativa e mutuamente fecundante entre a ciência e suas ciências e a arte e suas artes. Entre ambas e as múltiplas experiências ancestrais e recentes da espiritualidade e de outros campos e planos da imaginação humana, onde o lugar da filosofia deverá voltar a ser muito importante. Finalamente, um
“espírito quântico”, aberto à indeterminação. Aberto a uma correspondência epistemológica com a evidência da própria ontologia do real.
Um olhar humilde e corajoso e devotado à consciência de que pessoas, culturas, sociedades, planos e seres da vida, dimensões da matéria e realizações micro ou macro da energia do Universo não são máquinas e não se correspondem como em uma linha de montagem de grande escala. Não existem como relógios mecânicos, não interagem e não se integram em totalidades físicas, sob leis definitivas. Assim sendo, em cada unidade de Ser e nas suas relações, não se abrem a uma compreensão reducionista.
Talvez a Vida imagine. Certamente a Vida imagina. Devemos imaginar também. Talvez a Terra sinta. Devemos sentir também. Talvez o Universo sonhe. Devemos aprender a sonhar também. E querer aprender já é o começo de um sonho.



capítulo sexto
Com relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multidirecional. Levando em conta os conceitos de tempo e de história, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte trans-histórico.
Pois são os nossos próprios conceitos de “tempo”, de “espaço”, de “história” e até mesmo de “horizonte” estão aí, abertos a novas interpretações e a novas interconexões.
Até aqui matematicizamos o nosso imaginário científico, e mesmo do senso comum, para pensarmos estas categorias e outras que a elas estão sempre ligadas. Seria preciso devolve-las a uma dimensão “trans”. A um lugar no pensamento e no imaginário que não se limita nem entre os números e nem entre as fórmulas.
Se todas as coisas que existem no real, vivem na complexidade as suas dimensões da realidade e podem ser sensibilizadas e pensadas por nós através de novas e ousadas interações - inclusive e essencialmente as provenientes do espírito e da inteligência - então tudo o que há, a partir de nossas próprias experiências individuais e partilhadas de Vida e de Vida Consciente, pode ser vivido e pensado através de um olhar e de uma compreensão “trans” de cada ser e de totalizações diferenciadas de seres da sociedade, da vida e do mundo.
Um horizonte trans-histórico é um horizonte de uma história cósmica. Ele pode ser compreendido como situado fora e muito além das reduções com que temos procurado compreender todas as coisas, todas as fronteiras entre elas, e todos os horizontes para além delas.

artigo sétimo
A transdisciplinaridade não constitui uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.
Porque a vocação transdisciplinar não é uma coisa e não é um outro campo específico de realização da aventura do saber humano. Não é, portanto, uma “área”, uma nova “ciência” ou uma disciplina.
Ela é um modo de.
Ela se propõe ser uma re-educação pessoal e partilhada do olhar, da sensibilidade, da imaginação e da inteligência, em todos os seus múltiplos planos fecundantes de realização.
Ela é uma outra maneira de ousar pensar e aventurar-se a criar conhecimentos.
Ela começa por propor um enlace entre as dimensões múltiplas da experiência humana no próprio compromisso do olhar do saber: a sensibilidade, o afeto, o desejo, a amorosidade, a confiança nos sentidos, a redescoberta do corpo, a imaginação criadora, a inteligência múltipla.
Ela não se propõe ser uma outra ciência “trans”, ou uma síntese de sínteses. Assim sendo, não é um lugar definido entre outros e nem uma proposta acabada de coisa alguma. Ela é, ao mesmo tempo, uma sugestão inovadora de caminhos, um primeiro passo que só aprenderemos a dar se o dermos todos juntos. E ela se apresentará, então, como um horizonte. Um horizonte sempre móvel e mutante, provavelmente inatingível. Mas um horizonte verdadeiro que promete ser a indicação de um rumo que vale a pena seguir.

artigo oitavo
A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano na Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo – a uma nação e à Terra – constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar.
Somos filhos do vento, da terra, da água, das energias que tudo criam, movem e transformam.
Somos seres de uma família, de um clã, de uma cidade, de uma nação, de um povo e de uma pátria. Mas as diferentes dimensões sociais que nos dão identidades e nos situam no Mundo e na Era em que vivemos, são circuitos parcelares de nossa verdadeira vocação. E nela somos nativos e habitantes de uma mesma nave-casa: a Terra. Ela é o nosso berço verdadeiro e é o nosso lar. Abrigou o nosso nascimento e acolherá a nossa morte. Ela é o lugar no Universo que nos torna seres de todo o Cosmos.
A vocação transdisciplinar nos deve lembrar isto o tempo todo. Olhada desde esta vocação, as fronteiras políticas entre os países desaparecem e surgem as demarcações naturais abertas à irmandade entre os povos e aos relacionamentos fraternos entre nós e todos os seres da Vida.
Olhada desde esta vocação, toda a Terra é um mesmo lar, toda a Vida é a mesma história e nós nos vemos como irmãos do universo, muito mais do que como donos do mundo. Ddo alto desta imagem, como uma Terra vista da Lua, não há cerca e nem fronteiras políticas separando pessoas e povos.

artigo nono
A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam em um espírito transdisciplinar.
Todo o saber é uma construção do espírito humano, venha ele de uma universidade do Primeiro Mundo, venha ele da aldeia de uma Tribo da Amazônia ou da Austrália.
Todo o conhecimento funda um sistema de compreensão de alguma dimensão da realidade. Toda a construção de símbolos e de significados cria um modo de sentir, de pensar e de compreender.
Tudo o que pensa a experiência humana, a da Vida e a do Mundo, cria uma forma de competência e de criatividade, como uma realização do trabalho da mente humana. Neste sentido, não há certezas na minha ciência e erros nas dos outros. Não há coerência na metafísica européia e loucura nos mitos tapirapé.
O que há são escolhas. São opções de viver e de pensar, através da vida vivida, o sentido deste vida e os significados de suas relações com outros planos da realidade.
Está na hora de nos darmos conta de que aprendemos e de que construímos conhecimento essencial a respeito do bem, do belo e do verdadeiro – e, mais do que tudo, de suas interconexões – com os nossos sonhos e com as nossas ciência, com os devaneios e com os conceitos (Gaston Bachelard), com o mito e matemática, com a física e a filosofia, com a filosofia e a religião.
Assim como entre uma ciência e uma religião não existem desigualdades de saber, mas diferenças de vocações na criação de compreensões, assim também entre a “minha religião” e as “dos outros” não existem quantidades desiguais de verdades, mas qualidades diferentes de viver a experiência de crer em uma verdade e de praticar uma crença.

artigo décimo
Não existe lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. O movimento transdisciplinar é em si transcultural.
A cultura humana observa a mesma relação da Vida e do Universo. Tudo o que forma um todo não dissolve a identidade das partes que, interativa, interior e inteiramente, o compõem.
Não existe um eixo central em qualquer plano da existência de onde os outros partam e ao qual estejam subordinados por qualquer tipo de hierarquia. Tudo são existências, são planos diferenciais, mas não desiguais da existência. São dimensões do existir em contínua interação e em uma inacabável recriação de totalidades integradas, não por coisas que coexistem, mas por feixes e por redes de movimentos de diálogo e intercomunicação.
De igual maneira, as culturas humanas são diferenciadas, mas não desiguais. São diferentes habitantes de um mesmo amplo círculo humano de criação passada e presente de modos de vida e de modos peculiares de sentir e de pensar a experiência da vida humana, logo, cultural.
Não há entre as culturas dos diferentes povos que compartem a Terra e a Humanidade uma hierarquia de realização. Uma escala-escada que iria da mais “primitiva” à mais “civilizada”, da mais “rústica” à mais elaborada”, da mais “popular” à mais “erudita” e, em linha direta, da mais “coerente, racional, científica e confiável” à mais “incoerente, irracional (mítica), a-científica e não-confiável”.
Não existe tampouco qualquer tipo de sucessão civilizatória no tempo, como uma trajetória de elaboração cultural que fosse do “selvagem” ao “civilizado”, passando pelo “bárbaro”.
Se existe alguma evolução entre os seres vivos e entre as sociedades humanas, ela pode ser representada como vários rios, de vários tamanhos, volumes de água, ritmo e percurso, que por caminhos diferentes em uma mesma direção chegam em momentos diversos a locais diferentes de um mesmo grande mar, mais do representada como diversos afluentes que deságuam em rios que deságuam em um grande rio central que deságua no mesmo mar. Não existe o “grande rio” como o lugar do “branco”, do ‘ocidental’ e do “civilizado”. Só existe um grande rio se ele for toda a diferenciada humanidade.
Toda a cultura humana só é compreensível de dentro para fora. Ela só é tradutível a partir e através de sua própria lógica. Ela é o parâmetro único ou preferencial de sua realização.
As culturas mantém entre elas qualidades comparáveis através do valor único existente como o patrimônio de cada uma. As culturas não mantém entre elas quantidades de realização que faculte qualquer tipo de escala de posições por uma variação de desigualdades de realização. Por algo onde o próprio modelo da “realização cultural” está situado fora de cada cultura humana e está colocado nos critérios e nos valores de uma única, ou de um pequeno número de culturas - em geral “brancas” , “ocidentais” e de “primeiro mundo” - tidas como legítimas e hegemônicas. Logo, como modelos para as outras.

artigo décimo primeiro
Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração do conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar, e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos.
Todo o que ensina aprende com quem aprende.
Todo o que aprende ensina ao que ensina.
Toda a educação é uma vocação do diálogo.
O diálogo de cada pessoa com todas as instâncias de seu próprio eu, no corpo, na mente e no espírito.
O diálogo com o outro, com os seus outros, os que ensinam, os que aprendem. O diálogo concreto e vivenciado com a Vida de seu mundo cultural e com a natureza de seus ambientes de vida.
Saber é algo que transforma quem aprende a cada instante do gesto de aprender. Saber nunca é o resultado de uma acumulação de conhecimentos e de habilidades transmitidos por um outro, fora de um diálogo.
Saber é criar conhecimentos e é aprender a participar de situações e de processos ativos de criação do saber.
Aprendemos o tempo todo com o todo de nós mesmos, e é o todo da pessoa que somos quem se transforma a cada momento significativo do ato de aprender.
Uma educação transdisciplinar deve estar atenta a realizar-se como uma permanente oficina de experiências interativas de criação partilhada de saberes. Uma oficina de criação, de reflexão e de atividades postas em diálogo. Num diálogo onde o valor dos sentimentos, das intuições e da inteireza interativa de cada pessoa e de cada grupo da “comunidade aprendente” devem ser substantivamente levados em conta.

artigo décimo segundo
A elaboração de uma economia transdisciplinar é fundada sobre o postulado de que a economia deve estar a serviço do homem e não o inverso.
Aqui cabe lembrar a sustentabilidade.
Esta palavra deve ser uma das chaves de todo o processo econômico das relações pessoa-natureza, sociedade-ambiente.
Ela não tem apenas um sentido de “economia econômica”. Ao contrário, ela sugere e indica toda uma nova atitude relacional. Criar atividades econômicas dentro de uma ética de solidariedade absoluta entre pessoas e entre povos. Criar economias de comunhão fraterna para com a natureza e, não, de manipulação regida pelo interesse mercantil.
Em oposição a uma globalização da economia predatória e manipuladora de bens, serviços, pessoas e recursos naturais, pensemos em uma planetarização dos espíritos e das ações entre nós, seres humanos, e entre nós e a vida.
Em lugar da lógica da competição, o espírito da cooperação.
artigo décimo terceiro
A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, seja qual for a sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá levar a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma mesma e única Terra.
Uma tarefa urgente que nos envolve a todos: participar do esforço para que as desigualdades quanto à distribuição social e universal do poder, do capital, dos bens de uso e de troca, dos serviços e dos saberes seja reduzida a proporções cada vez menores. Seja assim reduzia e levada à progressiva extinção, em direção a uma igualdade de direitos de todas as pessoas, todos grupos humanos e todos os povos ao acesso a uma vida plena, fraterna e feliz.
Outra tarefa: em um mundo justo, igualitário, sustentável, justo, solidário e harmonioso, deixar que aflorem, se afirmem, dialoguem e se multipliquem as várias diferenças individuais, étnicas, culturais e de outros modos de ser e de escolhas de vida e de sentido da vida.
Uma ética transdisciplinar deve ser mais do que um repertório de atitudes de respeito ao tipo de mundo e de estilo de economia e sociedade em que desigualmente vivemos o presente momento e o horizonte próximo do futuro. Ela deve ir além. Tal como no processo de busca solidária e interativa do saber, ela deve resolver-se a uma partilha participante e responsável na tarefa comum de pensar criticamente o mundo em que vivemos e as possibilidades reais de sua transformação efetiva.
Somos livres e responsáveis não quando obedecemos às leis que outros fazem e aplicam, com justiça e equidade sobre nós, quem quer que sejamos. Somos livres e repensáveis quando assumimos tarefa social e solidária de partilhar do trabalho de criação de nossas próprias leis, de nossas próprias idéias, de nossos próprios mundos.
Compreendemos algo quando fazemos parte de uma dimensão do que está sendo compreendido. Assim, faço parte de um Mundo de cuja criação eu me sinto participante e, não, beneficiário.
Todo o diálogo é uma aventura de transformação.

artigo décimo quarto
Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na apresentação, que leva em conta todos os dados, é a melhor barreira às possíveis distorções. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado, do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às nossas.
A vocação transdisciplinar não pretende abolir os preceitos de rigor e cientificidade na prática social de criação de saber competente. Ao contrário, ela se obriga a recriar novas pautas, mais precisas ainda, e mais interativas e dialógicas do próprio sentido do rigor.
Saibamos sonhar, saibamos imaginar, saímos bailar conceitos e poetizar equações.
Mas que isto não seja nunca uma fuga. Uma fuga à aventura de um pensar sério e fecundo. Uma fuga diante da aventura de um pensar ousado e capaz de quebrar a todo o momento as barreiras posta à sua frente. Postas ali pelo próprio caminhar do saber humano. Ou postas ali contra ele, para que ele retorne a ser o que não deveria voltar a ser nunca mais.

artigo final
A presente Carta da Transdisciplinaridade foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, e não reivindica nenhuma outra autoridade além de sua obra e sua atividade.
Segundo os processos a serem definidos de acordo com os espíritos transdisciplinares de todos os países, esta Carta permanecerá aberta à assinatura de qualquer ser humano interessado em promover nacional, internacional ou transnacionalmente as medidas progressivas para a aplicação de seus artigos na vida cotidiana.

Convento de Arrábida, 6 de novembro de 1994
comitê de redação
Lima de Freitas, Edgar Morin, Basarab Nicolescu
relida e comentada em Campinas e na ROSA DOS VENTOS, no Sul de Minas
em junho e julho de 2001.
________________________________________
[1] Este Congresso foi realizado no Convento da Arrábida, em Portugal, entre 2 e 6 de novembro de 1994. Assinam a Carta de Transdisciplinaridade as seguintes pessoas:Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lula x FHC - a comparação


Em artigo no Estadão neste domingo(07/02/2010)'Sem medo do Passado' FHC, ex-presidente, acusa o presidente Lula de dissimulador e contador de mentira. Veja o quadro comparativo da gestão: (1994-2001) x (2002-2010):

LULA X FHC: comparação

INDICADOR FHC LULA
-Inflação 25,3% 1,72%
-Salário Mínimo U$56 U$291
-Balança Comercial U$8,7 bi U$235 bi
-Exportações U$60 bi U$198 bi
-Reservas Internacionais U$16 bi U$238 bi
-PIB per capita U$2.870 U$8.642
-Relação Dívida/PIB 51,3% 43,2%
-Selic 25% 8,7%
-Pobreza extrema 14% 7,6%
-Pobreza 34% 22,6%
-Desemprego 10,5 6,8%

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Acabo de sair de uma curso de capacitação docente - professores - do ensino superior que iniciou na segunda-feria(01/02), afiando as ferramentas de trabalho, folheando os mapas da caminhada, alimentado, nutrindo a cabeça e o corpo de código, símbolos e sinais que anima a vida.

Entre doutores, mestres e especialistas nas diversas ciências buscamos discutir - Qual o sentido da prática de ensinar? Quem é o sujeito que desejamos educar? A ciência teórica e a ciência prática digladiam na busca da eficiência e eficácia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A juventude e a idiotia


A juventude convive na incerteza ordenando as práticas a partir de concepções de mundo, homem e sociedade primado pelo anarquismo e alienação de si enquanto sujeito histórico.
Há uma proliferação cultural ideológica da irresponsabilidade e do consumismo. A mídia nos diversos programas implementam tal conceito. O humorista da Rede TV, Zina, do "Pânico na TV", preso por porte ilegal de arma,no dia 16/01, deve ser transferido ainda neste domingo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O que está em jogo em Copenhague - teólogo L. Boff


O que está em jogo em Copenhague
autor: Leonardo Boff *

Em Copenhague os 192 representantes dos povos vão se confrontar com uma irreversibilidade: a Terra já se aqueceu, em grande, por causa de nosso estilo de produzir, de consumir e de tratar a natureza. Só nos cabe adaptamo-nos às mudanças e mitigar seus efeitos perversos.
O normal seria que a humanidade se pergunta, tal como um médico faz ao seu paciente: por que chegamos a esta situação? Importa considerar os sintomas e identificar a causa. Errôneo seria tratar dos sintomas deixando a causa intocada continuando a ameaçar a saúde do paciente.

É exatamente o que parece estar ocorrendo em Copenhague. Procuram-se meios para tratar os sintomas, mas não se vai à causa fundamental. A mudança climática com eventos extremos é um sintoma produzido por gases de efeito estufa que tem a digital humana. As soluções sugeridas são: diminuir as porcentagens dos gases, mais altas para os países industrializados; e mais baixas para os em desenvolvimento; criar fundos financeiros para socorrer os países pobres e transferir tecnologias para os retardatários. Tudo isso no quadro de infindáveis discussões que emperram os consensos mínimos.


Estas medidas atacam apenas os sintomas. Há que se ir mais fundo, às causas que produzem tais gases prejudiciais à saúde de todos os viventes e da própria Terra. Copenhague dar-se-ia a ocasião de se fazer com coragem um balanço de nossas práticas em relação com a natureza, com humildade reconhecer nossa responsabilidade e com sabedoria receitar o remédio adequado. Mas, não é isto que está previsto. A estratégia dominante é receitar aspirina para quem tem uma grave doença cardíaca ao invés de fazer um transplante.

Tem razão a Carta da Terra quando reza: "Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo... Isto requer uma mudança na mente e no coração". É isso mesmo: não bastam remendos; precisamos recomeçar, quer dizer, encontrar uma forma diferente de habitar a Terra, de produzir e de consumir com uma mente cooperativa e um coração compassivo.

De saída, urge reconhecer: o problema em si não é a Terra, mas nossa relação para com ela. Ela viveu mais de quatro bilhões de anos sem nós e pode continuar tranquilamente sem nós. Nós não podemos viver sem a Terra, sem seus recursos e serviços. Temos que mudar. A alternativa à mudança é aceitar o risco de nossa própria destruição e de uma terrível devastação da biodiversidade.

Qual é a causa? É o sonho de buscar a felicidade que se alcança pela acumulação de riqueza material e pelo progresso sem fim, usando para isso a ciência e a técnica com as quais se pode explorar de forma ilimitada todos os recursos da Terra. Essa felicidade é buscada individualmente, entrando em competição uns com os outros, favorecendo assim o egoísmo, a ambição e a falta de solidariedade.

Nesta competição os fracos são vitimas daquilo que Darwin chama de seleção natural. Só os que melhor se adaptam, merecem sobreviver, os demais são, naturalmente, selecionados e condenados a desaparecer.

Durante séculos predominou este sonho ilusório, fazendo poucos ricos de um lado e muitos pobres do outro à custa de uma espantosa devastação da natureza.

Raramente se colocou a questão: pode uma Terra finita suportar um projeto infinito? A resposta nos vem sendo dada pela própria Terra. Ela não consegue, sozinha, repor o que se extraiu dela; perdeu seu equilíbrio interno por causa do caos que criamos em sua base físico-química e pela poluição atmosférica que a fez mudar de estado. A continuar por esse caminho, comprometeremos nosso futuro.

Que se poderia esperar de Copenhague? Apenas essa singela confissão: assim como estamos não podemos continuar. E um simples propósito: Vamos mudar de rumo. Ao invés da competição, a cooperação. Ao invés de progresso sem fim, a harmonia com os ritmos da Terra. No lugar do individualismo, a solidariedade generacional. Utopia? Sim, mas uma utopia necessária para garantir um porvir.

[Autor de Homem: Satã ou Anjo bom?, Record 2008].

* Teólogo, filósofo e escritor.



Fonte: www.adital.com.br

domingo, 13 de dezembro de 2009

Invenção da Veja: MST é movimento terrorista - dissertação mestrado


Entrevista com Najla dos Passos: A revista Veja e a invenção de um movimento terrorista

Leia a entrevista e revise os conceitos.


IHU - Unisinos *

Adital -
Desvendar as formas com que a "cultura de opressão" aos movimentos populares opera no Brasil é o objetivo da dissertação de mestrado "A revista Veja e a invenção do ‘MST terrorista’", de Najla dos Passos.
Sobre a imagem do MST construída pela mídia brasileira, mais especificamente pela revista Veja, e a representação do movimento pela sociedade civil, Najla conversou, por e-mail, com a IHU On-Line. "De brasileiros humildes e vítimas de um Estado omisso, os sem-terra, tal como os sertanejos de Canudos, foram transformados em representantes da ’sub-raça brasileira’ que, à margem da ordem e do progresso da civilização letrada, constituem a imagem do Brasil baderneiro e atrasado, combatido pelas forças hegemônicas que, desde a implantação da República, dizem querer um país moderno e civilizado, mesmo que apenas para uma parcela ínfima da população", lamenta. Najla tratou, ainda, de questões concernentes ao histórico do movimento no país, ao instrumento teórico do "materialismo cultural", utilizado em seus estudos, além da relação do MST com o governo Lula. "O governo Lula, apesar das relações históricas com os sem-terra, nada fez para efetivar a reforma agrária que o movimento tanto anseia. A contribuição da administração do PT ao setor foi tão ínfima que João Pedro Stedile chegou a declarar, em entrevista à imprensa, que Lula operou uma verdadeira "contrarreforma agrária" no campo brasileiro", lembra.


Najla dos Passos é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Linguagens pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Já atuou como professora da Faculdade de Comunicação Social da Universidade de Cuiabá (UNIC). Atualmente, trabalha com assessoria de imprensa em Brasília (DF).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você faz um resgate histórico dos trabalhadores que lutavam por terra que vem desde o descobrimento. Qual a imagem que o povo sem-terra teve nesses momentos históricos, como quando os portugueses chegaram ao Brasil, depois com a vinda dos portugueses etc.?

Najla dos Passos - As classes dominantes no Brasil sempre foram extremamente hábeis em utilizar o repertório cultural disponível nas suas respectivas épocas para desumanizar os mais pobres, os excluídos. Quando os portugueses chegaram ao Brasil e encontraram os índios vivendo fartamente e sem conceber a ideia de que a terra não era um bem comum, usaram todo o arsenal possível no repertório cultural da época para convencer o mundo de que eles eram selvagens, atrasados, boçais... que não eram seres humanos. Com isso, justificavam a prática de extermínio que utilizavam contra aqueles que não se deixavam catequizar, não aceitavam a nova ordem estabelecida. O pior é que muito dessa visão distorcida dos índios sobrevive até hoje: quantos ainda os associam à preguiça, ao atraso, à inabilidade para o trabalho?

Da mesma forma, os negros africanos foram tratados como "objetos animalescos", sempre associados ao perigo e à selvageria. Quando resistiam à escravidão, tornavam-se, como os índios, objeto de repressão impiedosa. É interessante notar que os termos bando, quadrilha e mesmo terror já eram amplamente utilizados pelos jornais da época para transformá-los em coisas. Data desta época, também, as primeiras referências ao discurso de que o trabalho na terra é indigno dos homens cultos, letrados, dotados de civilidade. Decorrência disso é a construção da ideia de que a foice, mais do que um instrumento de trabalho, é uma arma. Ideia que corrobora com a associação largamente difundida até nossos dias da relação entre trabalhador rural e criminalidade.

Infelizmente, nem mesmo a Proclamação da República alterou esse estado de "coisas". Os sertanejos que se rebelaram contra a miséria e a falta de oportunidade que assolavam o campo também foram marginalizados pelo discurso dominante. O melhor exemplo é, sem dúvida, o tratamento destinado aos sertanejos de Canudos, até porque isso se deu em uma época de grande evolução dos recursos necessários para a confecção e a distribuição dos jornais. Os pobres camponeses foram tratados como animais retrógrados que "manchavam" a construção do Brasil moderno, livre, republicano. Foi aí que a construção cultural da dicotomia entre a cidade/civilização versus campo/atraso, que a imprensa hoje faz parecer tão moderna e atual, firmou-se como premissa do discurso republicano. Mesmo os imigrantes brancos que vieram tentar a sorte no Brasil foram tratados de forma pejorativa e discriminatória, mostrando que a questão de classe, neste aspecto, sobrepõe-se às questões de gênero e raça, por exemplo.

IHU On-Line - Um dos questionamentos de sua dissertação é no que se baseia o discurso que considera o MST terrorista. Como você acha que a mídia brasileira construiu esse estereótipo?

Najla dos Passos - A postura da mídia convencional de equiparar o MST a organizações terroristas sempre me pareceu tão leviana, que fiquei sinceramente intrigada com o tema. Como jornalista, acompanhei por muitos anos, trabalhando para a própria imprensa convencional, o processo de ocupação de terras, os conflitos agrários, as ações do MST. Conhecia a processo suficientemente bem para ter clareza que o MST é um movimento pacífico, desarmado, disposto a utilizar muitos dos trâmites democráticos a que temos acesso na nossa sociedade. Com a minha pesquisa, descobri que foi justamente nesses elementos já cristalizados na nossa cultura que essa associação absurda se baseava. As imagens se repetem: é o sem-terra perigoso, indomável, sempre "armado" com foices, o analfabeto boçal, ignorante e atrasado que impede o país de se desenvolver, modernizar-se e tornar-se o tão sonhado país do futuro... são loucos insanos, como os terroristas islâmicos, pintados como fanáticos dispostos a impedir a modernidade global até mesmo com a própria vida, se necessário for. O MST, de vítima, passou a ser apontado como a principal causa da violência no campo, como o responsável por crimes de toda natureza, foi associado a facções criminosas urbanas como o PCC, acusado de fanatizar as crianças, incentivando-as a adotar posturas ideológicas consideradas atrasadas, como o comunismo e o socialismo, e, enfim, considerado o responsável por colocar em xeque toda a ordem democrática estabelecida no Brasil.

IHU On-Line - E pela Veja, especificamente?

Najla dos Passos - A Revista Veja é um fenômeno editorial sem precedentes. É a quarta revista mais vendida do mundo, apesar de ser editada em um país que ainda envergonha pelo número de analfabetos totais e funcionais. Pela sua penetração, força política e mesmo pelo seu tempo maior de elaboração, funciona como uma espécie de usina ideológica da classe dominante, na qual são testadas as ideias que depois serão difundidas pelo restante da mídia comprometida com o capital. Desde que foi criada, no período mais duro da Ditadura Militar, contou com grande aporte de capital estrangeiro e sempre defendeu os interesses do neoliberalismo norte-americano acima de quaisquer outros. Não por acaso, elegeu o MST como o principal inimigo do avanço neoliberal no Brasil, desde o início dos anos 1990, e não mediu esforços para rechaçá-lo, direcionando a postura do restante da mídia neoliberal em relação ao Movimento. A diferença é que, até a eleição de Lula, a Veja associava o MST ao comunismo, ao perigo vermelho. Mas depois que o Brasil elegeu um presidente de esquerda, precisou buscar um novo discurso para reforçar os aspectos negativos do Movimento. E o encontrou justamente no discurso da Guerra contra o Terror, capitaneado pelos Estados Unidos, após os eventos de 11 de setembro de 2001.

Mas, convenhamos, que nem mesmo para Veja é tarefa fácil transformar um movimento pacífico e querido dos brasileiros em organização terrorista. A revista precisou visitar a fundo o imaginário cultural do brasileiro para descobrir meios de sustentar essa acusação. E qual seria a figura dessa nossa história sem fortes tradições terroristas que melhor se adequaria à imagem desses fanáticos religiosos atrasados, incapazes de entender as premissas do progresso? A Veja foi muito esperta em resgatar Antônio Conselheiro, personagem histórico que foi peça-chave na revolta de Canudos e que teve sua imagem amplamente deturpada pela mídia de sua época. Da falsa imagem de um Antônio Conselheiro fanático e insano, propagada pelo discurso hegemônico, a revista reconstruiu a figura de uma das mais fortes lideranças do MST, estendendo, assim, para ele, as características negativas atribuídas ao líder sertanejo do final do século XIX. Fundamentada nos preconceitos próprios da ciência da época contra os brasileiros pobres e simples do sertão, eternizados pela obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, a revista re-significou os sem-terra à imagem e semelhança dos conselheiristas, já mascarados e massacrados pela retórica propagada pela imprensa e pelos intelectuais do século XIX. De brasileiros humildes e vítimas de um Estado omisso, os sem-terra, tal como os sertanejos de Canudos, foram transformados em representantes da "sub-raça brasileira" que, à margem da ordem e do progresso da civilização letrada, constituem a imagem do Brasil baderneiro e atrasado, combatido pelas forças hegemônicas que, desde a implantação da República, dizem querer um país moderno e civilizado, mesmo que apenas para uma parcela ínfima da população.

IHU On-Line - Quais são os principais elementos apontados na acusação ao MST?

Najla dos Passos - São tanto elementos residuais da tradição do pensamento colonial, imperialista e republicano brasileiro, alguns já citados, como também elementos emergentes, próprios da cultura do capitalismo tardio, como o pânico generalizado da violência e do terrorismo, apropriado com o propósito de imputar o repúdio absoluto à simples ideia da existência do MST. Procurando carimbar o movimento como uma organização baderneira e beligerante, a revista chega ao extremo de divulgar uma ligação jamais comprovada entre lideranças do MST e do PCC, a organização criminosa criada por presidiários paulistas, responsável por alguns dos mais impressionantes episódios de violência urbana no Brasil dos últimos anos. Parecendo desconhecer o fato de que o MST é efeito, e não causa das mazelas de um país marcado por uma desigualdade ímpar e, por isso, violento, a Veja omite e adultera o discurso de sustentação do movimento dos sem-terra, até o limite de classificá-lo como intolerante e avesso à ciência, como ficou bastante claro na cobertura do episódio de ocupação da Aracruz. Como se a ciência, como qualquer outra forma de discurso, não fosse apropriada pelas forças hegemônicas para respaldar seus objetivos de manutenção do status quo.

IHU On-Line - Como esta construção influencia na imagem que os brasileiros têm do movimento?

Najla dos Passos - Em 1998, o IBOPE apurou que 80% dos brasileiros eram favoráveis à reforma agrária e apenas 12% eram contrários. Em 2003, uma nova pesquisa realizada pelo mesmo instituto revelou que 41% dos entrevistados se declararam ‘totalmente contra’ os sem-terra e outros 13% ‘parcialmente contra’. Os que se diziam ‘totalmente a favor’ ou ‘parcialmente a favor’ somavam 40%. 65% desaprovaram as formas com que o movimento agia, contra 30% dos ouvidos que aprovaram. O trabalho da imprensa neoliberal, portanto, influencia sim a imagem que o brasileiro faz do movimento. Mas não a determina por completo, como muitos teóricos da comunicação julgam capaz. A ação de outras forças sociais, nesse caso contra-hegemônicas, impede que essa ideia, embora dominante, torne-se unanimidade. Por isso a importância do trabalho de divulgação e de denúncia dos jornalistas, militantes e intelectuais nos jornais populares, sindicais, na imprensa pública, nas universidades, nos fóruns sociais etc.

IHU On-Line - Sua reivindicação é que o MST, entra governo e sai governo, permanece ofendido pela imprensa neoliberal. O governo Lula foi uma decepção para o movimento?

Najla dos Passos - Não posso, de forma alguma, falar pelo movimento. E sei que a questão é bastante controversa, inclusive dentro do próprio MST. Mas é impossível negar que, hoje, a concretização da reforma agrária no Brasil permanece como uma utopia distante, e o futuro do MST como uma incógnita. O governo Lula, apesar das relações históricas com os sem-terra, nada fez para efetivar a reforma agrária que o movimento tanto anseia. A contribuição da administração do PT ao setor foi tão ínfima que João Pedro Stedile chegou a declarar, em entrevista à imprensa, que Lula operou uma verdadeira "contrarreforma agrária" no campo brasileiro. A média de famílias assentadas por ano foi inferior, inclusive, do que as beneficiadas com um pedaço de terra durante o governo Fernando Henrique Cardoso. E nada de infraestrutura, nem de liberação de crédito rural. Por outro lado, há companheiros que apontam a redução da violência no campo e o aumento da renda dos trabalhadores rurais por meio de programas sociais como o Bolsa Família, como avanços dos governos Lula... Uma coisa, porém, é certa. A ofensiva da imprensa neoliberal contra o MST continua intensa, mude ou não o governo e a conjuntura. É possível concluir também, a partir dessa pesquisa que, ao contrário do que a revista Veja apregoa em nome das forças hegemônicas, não é o MST que é anacrônico e atrasado, mas sim a elite brasileira comprometida com o ideário neoliberal. Afinal, é essa elite que precisa se ancorar em um discurso ultrapassado, insustentável cientificamente, já largamente desgastado pela imprensa de séculos atrás, em tentativas desesperadas de combater a luta dos trabalhadores em geral, nominados por ela de "classes perigosas", em uma república proclamada pelo alto.

IHU On-Line - Como a ótica do materialismo cultural de Raymond Williams é tratada neste estudo?

Najla dos Passos - Considero Williams um autor fantástico, justamente porque ele amplia a visão marxista mais tradicional de que a cultura é apenas um reflexo das relações econômicas estabelecidas, seguindo a trilha aberta antes por Gramsci e Bakhtin. Para o autor, a cultura é uma arena em que forças divergentes se confrontam na disputa pelo espaço hegemônico. Não está associada apenas à doutrinação e manipulação, tão ressaltada pelos autores que se fixam no estudo da ideologia. E também não é apenas uma experiência particular, uma investida artística. É, sim, todo um modo de vida, influenciado e re-significado, inclusive, pelas próprias contradições de seu tempo histórico. É um instrumental que nos permite, por exemplo, entender porque nem todos os brasileiros consideram o MST uma organização terrorista, apesar da grande ofensiva da imprensa. Permite-nos também entender como elementos residuais, ligados às mais antigas tradições, podem se fazer atuais e presentes para re-significar situações novas, considerando e legitimando o estudo das concepções literárias, da história das ideias, das crenças científicas e mesmo das teses intelectuais. E, a partir deste entendimento, permite-nos criar novas formas de lutar para reverter esse quadro.

IHU On-Line - Porque a data de 11 de setembro é um marco para o seu trabalho?

Najla dos Passos - O 11 de setembro inaugura a chamada Guerra contra o Terror que, com a desculpa de exterminar o terrorismo do mundo, cria novos mecanismos e elementos para desumanizar o diferente, impor preconceitos e exaltar supremacias. É o episódio que inaugura, para utilizar as palavras de Williams, a principal "estrutura de sentimento" (ou a característica mais particular) da nossa geração: uma geração assustada, com um medo irracional de um perigo que, muitas vezes, ela não consegue identificar racionalmente, e acaba direcionando-o, com a ajuda hábil da imprensa, ao pobre, ao negro, ao sem-terra, ao favelado, aos "de baixo", como definiria Williams. Uma geração tão bombardeada por imagens e informações que acaba perdendo suas referências de realidade e, acuada, começa a acreditar que a causa da violência está nos assentamentos, nas periferias, nas favelas, e não em um sistema econômico que exclui cada vez mais, que destrói o meio ambiente, que produz a guerra.


* Instituto Humanitas Unisinos

domingo, 18 de outubro de 2009

Racismo e discriminação racial: diferenças


Sociologia. (livro do Ali Kamel - diretor da Rede Globo)
No Brasil 42,6% da população é de cor ou raça parda, conforme Relatório do IBGE, 2006. Isto significa que, de cada 10 pessoas em uma sala de aula 4 deveria ser negras ou pardas. Donde estão estas pessoas de cor ou raça parda? Na sala de aula de 20 temos 1. Será que os negros são ociosos e não predispostos ao estudo? Ou falta de oportunidade ou condições para tal empreendimento?
Na outra ponta, ao falar sobre racismo ou discriminação racial a maioria diz que não comete tal ato, pois considera o negro e o branco como iguais. Na realidade tal discurso não se efetiva na prática. Onde estão os negros no Banco do Brasil, CEF, gerente de grandes empresas, etc.? O racismo e a discriminação existe e é disfarçado. O que é racismo e discriminação? Qual a diferença? No Relatório das desigualdades raciais no Brasil 2007-2008, aponta que racismo associa práticas sociais e culturais a determinado povo como se fosse de sua natureza inata e não condicionantes de fatores histórico-sociais. O racismo cultural associa um grupo de pessoas ter cor de pele e traços fisicos (branco, negro, indígena ou amarelo) como se determinasse o seu modo ser individual e coletivo como pior ou melhor. O racismo é a identificação social(conceitual) no grupo como inferior, pior na relação com outro.
A discriminação racial é ato, quando a pessoa a partir de conceitos racista toma atitude, postura que efetiva tal concepção de ser inferior e superior, fraco e forte, pior e melhor, impuro e puro, considerando a cor da pele e os traços físicos.
A discussão sobre cotas raciais e a rejeição advém do desconhecimento e do medo do conflito em assumir que é racista e discriminador. Assumir uma atitude que os conceitos interno - fundamentação conceitural e moral - digladiam a rejeição.
A cultura negra na sua origem africana e posteriormente na condição de escravizada a identidade negra se firmou como reação a unificação cultural branca e o etnocentrismo. Os negros não se identificavam como diferentes. A cultura negra se mesclou sincreticamente com os amerindios e europeu e se amalgamou com a propria cultura brasileira. a cultura negra é vista aspectos dos grupos folclóricos: carnaval, capoeira, etc. A ação do negro só é valida de passar pelo filtro do dominante branco, ou do braquecedor. No carnaval quem observa no camarote são a maioria branca, com a cultura européia que observa os negros e seus aliados culturais ou afro-descendentes.
Nem todos os negros se identificam com sua origem afro-descendente e das lutas contra a escravidão, racismo e liberdade, afirma o Relatório das desigualdade raciais, da UFRJ(2009),expressando a ideologia racista à brasileira. Alguns negros dizem: 'sou contra a política das cotas porque é uma forma de racismo, considerando que o negro é um inferior'. Tal premissa trata a política pública de combate ao racismo é algo individual e não coletiva ou de ação pública do Estado. OS desiguais em condições devem ser tratados (presente) nas mesmas condições como se fosse (futuro)iguais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os (des)caminhos da educação e a idiotia


......................................Educação - Os limites na educação advém de quatro vetores em que associam situações materiais e imateriais, e conceituais. O primeiro vetor são as instituições de ensino que não dispõem dos meios necessários para o ato de ensino-aprendizagem, ou aprendência (Asmann,2006), desde a educação infantil, fundamental, médio e superior, no município, estado e União. O segundo, são as formas de financiamento e partilha dos recursos com um sistema de gestão e controle que é burocrático e não social. Os atores responsáveis pela educação (família e alunos, Estado, acrescidos de professores e demais servidores - cf. LDB, lei nº 9.394/96)não participam do processo. Os valores orçados e aplicado em cada IE (instituição de ensino) não tem a devida publicidade e participação popular. Sugerimos que cada família recebe em casa, pelo correio, informe sobre os valores e que o Estado motive a participar na elaboração dos projetos e controle dos recursos. Nos setores populares acredito que haverá massiva participação se perceberem seriedade na proposta e não uso político eleitoral. As escolas públicas foram privatizadas para os interesses das oligarquias locais (72% dos pequenos municípios) e para o capital. As privadas para resguardar o 'darwinismo social' e o status quo da classe média decadente que sobrevive a ilusão de ser 'opinião pública'.

O terceiro vetor advém da fragmentação, divisão, obscuridade des-unidade conceitual quanto as razões antropológicas, filosóficas e teleológicas da educação e da prática pedagógica docente. Os docentes não estão em crise. Observem a reação da PUC, USP, Universidades estaduais. As escolas de formação docente de-formam, pois estão pautados numa teoria que justificam a prática baseado no primado do 'formação para o capital' e 'socialização para a harmonia social'. A contradição é anomia. O liberalismo pedagógico transmuta para o idealismo hegeliano. O último vetor é a Mídia local e nacional que dissemina a ideologia do 'futuricídio' - morte do futuro. O quadro de morte acrescido de violência tecem as relações educacionais dando-lhe uma identidade, e o quadro de viva - os projetos sociais significativos - são tratados pela mídia como periféricos, por isso o Brasil melhorou mas tal a escola continua péssima, e os resultados das notas da Prova Brasil são expressões de tal - quadro da morte. Ou interpretamos a realidade ou nos devora. A solução do Brasil não passa pela educação (superestrutura) mas sim pela economia e pela descentralização da propriedade. Estamos engatinhando, rumo a escola, digo educação.

Prof. Joaquim Pacheco de Lima