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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um outro pensar para outro viver


O texto abaixo é um libelo fruto da reflexão da prática de um pensador popular afinado com a educação popular. Acesse o portal do Carlos Brandão que é um primor. (www.sitiorosadosventos.com.br)

Segue o 10 artigo sobre transciplinaridade da vida.
Abraço.
Joaquim P. Lima - Londrina-Pr.
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UM OUTRO PENSAR PARA UM OUTRO VIVER
O texto e comentários do manifesto da transdisciplinaridade[1]
Carlos R. Brandão.
preâmbulo
Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas e não-acadêmicas leva a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível qualquer visão global do ser humano;
Disciplinas, matérias acadêmicas, áreas específicas de competência do saber, setores especializados e ultra-especializados do conhecimento ...
O modelo atual de criação de saber especializado gera uma expansão crescente de galhos e de ramos científicos e não-científicos tendentes a uma perda de contato com troncos unificadores. Troncos de conhecimento e de sensibilidade destinados uma crescente compreensão plena e profunda dos mistérios da Vida e do Universo em todas as suas dimensões. E também troncos de saber e sensibilidade com as suas raízes originárias na vocação humana de criar sentido através do conhecimento.
O saber múltiplo, multifocal e pluri-especializado acumula conhecimento compartimentado e fragmenta o seu poder de gerar sabedoria. Há uma progressiva perda de três fundamentos essenciais para uma compreensão do mistério e do sentido do todo unificador em todos os planos da existência: a integração entre diferentes campos e domínios das diversas ciências; a interação entre tipos e vocações do saber, como os da ciência, os da filosofia, os da arte, os da espiritualidade e os da religião; a indeterminação, isto é, o sentido de que em todos os seus planos e dimensões, o existente dado ao conhecimento não é plano, não é mecânico, não é mecanicamente previsível e não é redutível a fórmulas finais de explicação.
Considerando que somente uma inteligência capaz de abarcar a dimensão planetária dos conflitos atuais poderá fazer frente à complexidade de nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual de nossa espécie.
Só se preserva o que se ama. Só se ama o que se compreende. Só se compreende aquilo a respeito do que se possui uma forma consistente e confiável – mesmo quando provisória - de conhecimento. Ou o que se pode colocar como uma dimensão do mistério da Vida e do Universo a ser um dia compreendida. Mesmo que esta compreensão seja também sempre provisória e aberta a transformar-se, a se tornar mais diferenciada e mais complexa. Só se conhece de maneira verdadeira o que se reconhece como parte, eixo ou relação de teias da complexidade da própria existência e como um momento dos processos contínuos de transformação e de re-criação de tudo o que existe no todo do que existe.
Somente uma nova compreensão, ao mesmo tempo capaz de abarcar o absoluto da individualidade e da diferença, e a criação contínua e diferenciada de totalidades, poderá voltar-se à complexidade da Vida e do Mundo no presente momento, aqui e agora.
Somente uma tal compreensão integrada do mistério do sentido da experiência humana, dos vínculos vitais entre a espécie humana e toda a teia da Vida, das interações entre a Vida e o lar que a abriga, a Terra e, finalmente, entre nosso Planeta e toda a arquitetura do Cosmos, poderá fazer frente ao desafio crescente da perda de qualidade vital em que nos vemos envolvidos a cada dia. E também da sempre presente ameaça de destruição das condições de existência da Vida Humana e de toda a cadeia da Vida na Terra.
Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia.
Nós, seres humanos, seres do mundo da cultura, somos a experiência de Vida no Planeta Terra que de maneira contínua e sempre inacabada está emergindo da e na natureza que nos é dada, em cujo seio vivemos e de que somos parte. Pois nela existimos a partir de nossos próprios corpos, e com os próprios recursos dela, a Natureza, vivemos o dilema de podermos acrescentar vida á vida e de fertilizar continuamente a Terra ou de destruí-la, como lugar-biosfera, capaz de abrigar o milagre da Vida, destruindo a Vida e a nós próprios.
As ameaças de um término por mãos humanas da Vida na Terra-Una, têm o seu princípio na ciência que estamos criando, e na tecnologia que aplica as suas descobertas e se volta sobre a sociedade e a natureza regida, a cada dia mais, por valores de eficácia e de interesse. Temos nos voltado ao mundo natural com o propósito de submetê-lo e de tê-lo produtivamente sob o nosso controle. Isto é o oposto do nos voltarmos a ele como parceiros de uma comunhão fraterna com a Natureza. Isto é, conosco mesmos, com a Vida e com a Terra-Viva.
Lidamos com a tecnologia triunfante, como se ela fosse um arsenal militar. Como se ainda existisse uma “natureza a conquistar”. Os fundamentos da ação social sobre a natureza são os do poder e da manipulação. São, portanto, os da competição e de acumulação crescente e desproporcional aos parâmetros de nossa sobrevivência e nosso bem estar. Lidamos com a natureza como um repertório de mercadorias disponíveis e inesgotáveis, esquecidos de que “o sumo bem é a própria vida” (Berthold Brecht).
Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências sobre o plano individual e social são incalculáveis.
A razão de ser do saber é criar elos de comunicação na corrente da vida em todos os seus planos e em todas as suas dimensões. É criar eixos fraternos de interações fecundas. É gerar de maneira contínua e crescente situações de diálogo entre nós, seres humanos, assim como entre nós e todos os outros seres da Vida, assim como entre a Vida e o mistério da Terra e do Cosmos. Alargar sempre mais as fronteiras do diálogo, eis toda a nossa vocação humana.
É perigosa e potencialmente destrutiva da Vida a associação de um saber mecânico e motivado por interesses de apropriação da natureza, com um aprendizado dirigido a formar pessoas produtivas de um ponto de vista de mercado e de tecnologia manipuladora, em detrimento de um conhecimento complexo e integrado. Um conhecimento generoso, tanto no campo das ciências quanto nos intervalos de fronteiras entre a ciência e outras formas de pensar, sentir e criar. Um tal conhecimento, transformado também na vocação de criarmos programas de ensino-aprendizagem originados em uma educação orientada a formar sujeitos interativamente éticos, reflexivamente complexos e politicamente responsáveis pelo destino de suas vidas, de suas sociedades e de seu Mundo. A produção crescente de conhecimentos destinados a tecnologias manipuladoras e a sua difusão através de uma educação reeducionista e utilitária, estão respondendo por um estreitamento do horizonte de imaginários e de sentidos das ações humanas.
Há, ao lado de um crescendo geométrico de saberes estanques e interessados em resultados de proveito de mercado, uma perda da vocação humana voltada ao imaginário criativo e à ação amorosa. Há um crescente aumento do poder de manipulação de pessoas, de povos e da natureza, ao lado de uma ameaça de desintegração dos eixos de relações complexas e harmoniosas de saber, de valor e de poder entre os seres humanos e entre eles e a Vida. Nós nos vemos mais do que nunca tentados a nos afirmar como “senhores do mundo”, quando podemos nos reconhecer como “irmãos do universo”.
Considerando que o crescimento do saber, sem precedentes na história, aumenta a desigualdade entre aqueles que o possuem e aqueles que são desprovidos dele, engendrando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações do planeta.
Todos os povos da Terra possuem saberes bons e legítimos em suas culturas e como expressões das criações culturais de seus participantes. Mas há um saber que se universaliza e que tende a se apresentar como a forma globalizada e quase única do “saber bom, belo e verdadeiro” entre todos os outros. Ele é o saber múltiplo e diferenciado, mas não ainda complexo, resultante das criações das ciências e das tecnologias do pensamento ocidental – Japão incluído.
Este fato tem gerado um distanciamento geométrico entre uma forma padrão de saber e todas as outras. E tem originado, por causa dos efeitos lógicos práticos e políticos de suas aplicações, um afastamento muito grande entre povos que o detém e povos que não o detém. Entre pessoas que se apropriam de parcelas dele e pessoas a quem não são dadas tais oportunidades.
Ao invés de representar uma grande universalização planetária do conhecimento, através de sua difusão generosa e de sua aberta partilha entre povos e pessoas, a acumulação desigual do conhecimento legítim,o saído principalmente das universidades ocidentais e de centros equivalentes de pesquisa científica, provoca uma desigualdade equivalente às desigualdades não-harmoniosas dos bens materiais – capital incluído – e dos poderes sobre a gestão do presente e do futuro de pessoas e de povos do Planeta.
A desigualdade crescente do poder de criar, acumular, difundir e utilizar o saber, torna o conhecimento humano desigual uma outra forma desnecessária e perversa de poder. Nunca saber representou tanto poder. E nunca o saber esteve tão ameaçado de tornar-se uma propriedade, quando deveria ser sempre uma partilha.
Considerando simultaneamente que todos os desafios enunciados têm a sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode levar, a longo prazo, a uma mutação comparável à passagem dos hominídeos à espécie humana.
Algumas vezes, na trajetória da vida da humanidade passos de quantidade podem se transformar em saltos de qualidade.
Já vivemos isto antes e podemos estar na aurora de algo semelhante. Este “salto” poderia estar no que representaria toda a acumulação diferenciada de saber, assim como as possibilidades crescentes de criação de novas compreensões de tudo, através da interação de diferentes conhecimentos científicos, e na integração entre eles e outros tipos e modos de saberes e de sensibilidades provenientes das artes, das ciências, das espiritualidades, das religiões, ao lado de uma partilha generosa e verdadeira dos saberes e de toda a gama múltipla de suas aplicações. Aplicações não mais dirigidas a uma “conquista” utilitária da natureza, mas a uma comunicação fraterna com ela e entre nós: pessoas, grupos sociais, nações e povos da Terra.
O que soubermos fazer ética e amorosamente com o saber, determinará em boa medida aquilo que aprenderemos a fazer em nome de nosso destino na Terra, em nome do destino da Vida na Terra e em nome da Terra-Viva.
A esperança está em tudo. A esperança deve estar em tudo!
Todos os desafios de destruição, de desigualdade, de exclusão e de de-harmonia têm, como contrapartida nossa: a esperança. A esperança da reconstrução, da igualdade partilhada, da inclusão de todos na felicidade, da re-harmonia entre as pessoas, entre os povos e entre nós, seres humanos, e a vida.
Não fomos consagrados ao mal. Não precisamos destruir para sobreviver, pois o que destruirmos do Mundo Natural de que somos parte, nos destruirá também.
Não estamos devotados à destruição. Somos seres da espera e da esperança. A esperança está sempre adiante, no horizonte dos passos a caminhar, e está no absoluto presente de cada momento. Somos seres destinados a retornar a um sentido pleno de vida abundante, de vida fraterna, de vida plena em todos os planos da Vida. A esperança é o nosso lugar de partida. Ela é a realização completa dos nossos sonhos possíveis agora, e agora ainda provisoriamente inalcançáveis, mas nunca impossível de vire ma ser um real construído por mãos, mentes e corações humanos.. A esperança é o ponto de chegada e é o re-início do caminhar ainda, mesmo depois de haver chegado.
Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento de Arrábida, 2 – 7 novembro 1994) adotam a presente Carta, como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade de espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo signatário desta carta faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional.

artigo primeiro
Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolve-lo em estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.
O ser humano é uma obra aberta. Ele pode estar sempre se recriando. Ele deve estar sempre se recriando. Ele está sempre se recriando.
O ser humano é o autor , ou é um co-autor essencial da obra de si-mesmo.
O ser humano é sempre inacabado e aperfeiçoável, ele depende de si mesmo para tornar-se sempre mais aperfeiçoado.
O ser humano é uma vocação ao diálogo. Pois é no encontro, é na comunicação, é na interação solidária com ele mesmo com os seus outros - outros seres humanos e outros seres da Vida - é no diálogo com o seu Mundo e com os seus mistérios, que ele se realiza a si mesmo, realizando-se com o Outro e no Outro.
O homem não se reduz a fórmulas, não se reduz a definições acabadas, não se encerra na proposta de uma maneira única e formal de ser.
O ser humano é criador de sentidos e significados para um pensamento e para uma existência transdisciplinar.
Qualquer teoria ou qualquer ação social que negue isto, nega a sua própria vocação.

artigo segundo
o reconhecimento da existência de diferentes níveis da Realidade, regidos por lógicas diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível, regido por uma única lógica, não se situa no campo da transdisciplinaridade.
Em qualquer direção o caminho único são múltiplos caminhos. Pois não há um único caminho e não há caminhos únicos.
Eles são sempre vários, podem ser múltiplos e muito diversos, e sempre há caminhos novos a descobrir.
O conhecimento do desconhecido e o re-conhecimento do já conhecido nunca cabem em uma teoria única, em uma única lógica, em uma única vocação do saber.
A Realidade, em qualquer um dos seus planos de existência e de comunicação, é múltipla, é complexa e é diferenciada. Existe em vários planos, em diferentes esferas e entre diferentes situações.
Cada uma de suas unidades de realização – a pessoa humana entre elas –assim como cada um de seus planos, esferas e situações, estão sempre abertos à integrações, a interações e a indeterminações.
Tudo o que há e existe de/ algum modo, em alguma dimensão de algum tempo em algum lugar – ou de um tempo-lugar - tende a interagir em plano interno e externo. Tende a se comunicar e a criar e re-criar velhas e novas formas do existir. Existir é estar sempre criando e sempre criando-se.
E os caminhos para tanto são mais os da descoberta e da invenção do que os do cumprimento formal de leis fixas e pré-determinadas.
Tudo o que é e existe pode realizar-se adiante de um outro modo. Cada passo na escala de qualquer experiência da existência sugere, mas não determina os seguintes. Cada escolha de uma direção apenas aponta para um entre outros rumos e caminhos.
“Caminhante, não há caminho. Se faz caminho ao andar”.

artigo terceiro
A transdisciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar: faz emergir do confronto das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio de várias disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.
O particular deve partilhar o todo, deve compartir integrações, interações e indeterminações na busca da compreensão inacabável de sentidos. Tudo é inacabável e infindo. O particular deve partilhar o Todo diferenciado de tudo e, não, parcelar todas as coisas até esquecer a memória do Todo de tudo de onde proveio. Deve ser um desafio ao encontro de sentidos e de significados entre os diferentes campos e planos do saber e do sentir. Pois assim como as “coisas” existem no real, existem no outro plano do real que é a mente que o contempla e pensa. Pois de igual maneira tudo o que existe e se oferta ao conhecimento humano, existe em planos e em campos crescentes, inter-conectados e inacabáveis de existência.
O espírito transdisciplinar completa e integra o espírito disciplinar.
Não o destroi e nem concorre com ele. Não se interpõe ao interior de cada campo disciplinar. Ele se coloca entre as e além das disciplinas, e busca, através de interações entre elas e integrações para além delas, atingir o lugar de partida desde onde e de maneira irreversível elas se atravessam e se ultrapassam.

artigo quarto
O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas, Ela pressupõe uma racionalidade aberta, mediante um novo olhar sobre a relatividade das noções de “definição” e de “objetividade”. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e o exagero de objetividade, incluindo a exclusão do sujeito, levam ao empobrecimento.
O projeto transdisciplinar não almeja criar uma meta-ciência ou um mega-saber.
Não se trata de proporções e de quantidades. Trata-se de relações e de qualidades. Trata-se de aprender a ver o todo do móvel de imagens e de idéias que pensam o real, antes, através e depois de ver o que está em cada uma de suas gavetas.
Todas as faces do que é real se interligam. Aprendemos isto cada vez mais. Assim também, todos os olhares das faces humanas da imaginação e do pensamento deveriam, através e para além do “ver de cada olho”, abrir-se ao desvendamento de novos cenários, ou dos mesmo cenários percebidos cada vez mais através e além de novos olhares.
As próprias categorias mais essenciais das ciências e da ciência deveriam ser revisitadas. Não para serem superadas e colocadas de lado, mas para servirem a criarmos, juntos, um campo de novos conceitos, de novas definições, de novas inter-conexões. Novas interações entre o vivido e o pensado, entre o pensado e o real, que recoloquem em seus lugares os próprios sujeitos humanos dos processos criativos de construção partilhada de conhecimentos.

artigo quinto
A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação, não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual.
Tudo o que construímos como saber humano e como conhecimentos específicos deste saber é ainda uma pequenina parte do que sempre inevitavelmente restará a saber. Quanto mais certezas alcançamos e possuímos, mais elas nos abrem ao incerto, ao incomensurável do desconhecido. Quando mais conhecido, tanto mais consciência das dimensões inevitáveis e sempre abertas a nos do desconhecido. Pois o desconhecido não é nosso limite, porta fechada ao saber humano. É o caminho sempre adiante, porta aberta á mente reflexiva.
Quanto mais leis científicas, tanto mais a descoberta de uma múltipla, complexa e polissêmica realidade indeterminada, em planos que vão de nossas próprias mentes até a arquitetura do Universo.
Todo o saber de um mesmo campo do conhecimento científico encontra os seus próprios limites em fechar-se e em se estabelecer como um campo especializado e quase sempre fechado e isolado do saber e da experiência do mundo.
A vocação transdisciplinar pede ao imaginário e à inteligência, abertos a perguntas sobre Nós, humanos, sobre a Vida, sobre a Terra e sobre o Universo, três movimento já sugeridos acima. A integração generosa e corajosa entre áreas, campos e especialidades científicas, principalmente na contínua quebra de marcos de fronteira entre as “ciências exatas”, as “ciências biológicas” e as “ciências humanas”. A crescente intercomunicação, sem um eixo de poder central, e, portanto, interativamente criativa e mutuamente fecundante entre a ciência e suas ciências e a arte e suas artes. Entre ambas e as múltiplas experiências ancestrais e recentes da espiritualidade e de outros campos e planos da imaginação humana, onde o lugar da filosofia deverá voltar a ser muito importante. Finalamente, um
“espírito quântico”, aberto à indeterminação. Aberto a uma correspondência epistemológica com a evidência da própria ontologia do real.
Um olhar humilde e corajoso e devotado à consciência de que pessoas, culturas, sociedades, planos e seres da vida, dimensões da matéria e realizações micro ou macro da energia do Universo não são máquinas e não se correspondem como em uma linha de montagem de grande escala. Não existem como relógios mecânicos, não interagem e não se integram em totalidades físicas, sob leis definitivas. Assim sendo, em cada unidade de Ser e nas suas relações, não se abrem a uma compreensão reducionista.
Talvez a Vida imagine. Certamente a Vida imagina. Devemos imaginar também. Talvez a Terra sinta. Devemos sentir também. Talvez o Universo sonhe. Devemos aprender a sonhar também. E querer aprender já é o começo de um sonho.



capítulo sexto
Com relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multidirecional. Levando em conta os conceitos de tempo e de história, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte trans-histórico.
Pois são os nossos próprios conceitos de “tempo”, de “espaço”, de “história” e até mesmo de “horizonte” estão aí, abertos a novas interpretações e a novas interconexões.
Até aqui matematicizamos o nosso imaginário científico, e mesmo do senso comum, para pensarmos estas categorias e outras que a elas estão sempre ligadas. Seria preciso devolve-las a uma dimensão “trans”. A um lugar no pensamento e no imaginário que não se limita nem entre os números e nem entre as fórmulas.
Se todas as coisas que existem no real, vivem na complexidade as suas dimensões da realidade e podem ser sensibilizadas e pensadas por nós através de novas e ousadas interações - inclusive e essencialmente as provenientes do espírito e da inteligência - então tudo o que há, a partir de nossas próprias experiências individuais e partilhadas de Vida e de Vida Consciente, pode ser vivido e pensado através de um olhar e de uma compreensão “trans” de cada ser e de totalizações diferenciadas de seres da sociedade, da vida e do mundo.
Um horizonte trans-histórico é um horizonte de uma história cósmica. Ele pode ser compreendido como situado fora e muito além das reduções com que temos procurado compreender todas as coisas, todas as fronteiras entre elas, e todos os horizontes para além delas.

artigo sétimo
A transdisciplinaridade não constitui uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.
Porque a vocação transdisciplinar não é uma coisa e não é um outro campo específico de realização da aventura do saber humano. Não é, portanto, uma “área”, uma nova “ciência” ou uma disciplina.
Ela é um modo de.
Ela se propõe ser uma re-educação pessoal e partilhada do olhar, da sensibilidade, da imaginação e da inteligência, em todos os seus múltiplos planos fecundantes de realização.
Ela é uma outra maneira de ousar pensar e aventurar-se a criar conhecimentos.
Ela começa por propor um enlace entre as dimensões múltiplas da experiência humana no próprio compromisso do olhar do saber: a sensibilidade, o afeto, o desejo, a amorosidade, a confiança nos sentidos, a redescoberta do corpo, a imaginação criadora, a inteligência múltipla.
Ela não se propõe ser uma outra ciência “trans”, ou uma síntese de sínteses. Assim sendo, não é um lugar definido entre outros e nem uma proposta acabada de coisa alguma. Ela é, ao mesmo tempo, uma sugestão inovadora de caminhos, um primeiro passo que só aprenderemos a dar se o dermos todos juntos. E ela se apresentará, então, como um horizonte. Um horizonte sempre móvel e mutante, provavelmente inatingível. Mas um horizonte verdadeiro que promete ser a indicação de um rumo que vale a pena seguir.

artigo oitavo
A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano na Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo – a uma nação e à Terra – constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar.
Somos filhos do vento, da terra, da água, das energias que tudo criam, movem e transformam.
Somos seres de uma família, de um clã, de uma cidade, de uma nação, de um povo e de uma pátria. Mas as diferentes dimensões sociais que nos dão identidades e nos situam no Mundo e na Era em que vivemos, são circuitos parcelares de nossa verdadeira vocação. E nela somos nativos e habitantes de uma mesma nave-casa: a Terra. Ela é o nosso berço verdadeiro e é o nosso lar. Abrigou o nosso nascimento e acolherá a nossa morte. Ela é o lugar no Universo que nos torna seres de todo o Cosmos.
A vocação transdisciplinar nos deve lembrar isto o tempo todo. Olhada desde esta vocação, as fronteiras políticas entre os países desaparecem e surgem as demarcações naturais abertas à irmandade entre os povos e aos relacionamentos fraternos entre nós e todos os seres da Vida.
Olhada desde esta vocação, toda a Terra é um mesmo lar, toda a Vida é a mesma história e nós nos vemos como irmãos do universo, muito mais do que como donos do mundo. Ddo alto desta imagem, como uma Terra vista da Lua, não há cerca e nem fronteiras políticas separando pessoas e povos.

artigo nono
A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam em um espírito transdisciplinar.
Todo o saber é uma construção do espírito humano, venha ele de uma universidade do Primeiro Mundo, venha ele da aldeia de uma Tribo da Amazônia ou da Austrália.
Todo o conhecimento funda um sistema de compreensão de alguma dimensão da realidade. Toda a construção de símbolos e de significados cria um modo de sentir, de pensar e de compreender.
Tudo o que pensa a experiência humana, a da Vida e a do Mundo, cria uma forma de competência e de criatividade, como uma realização do trabalho da mente humana. Neste sentido, não há certezas na minha ciência e erros nas dos outros. Não há coerência na metafísica européia e loucura nos mitos tapirapé.
O que há são escolhas. São opções de viver e de pensar, através da vida vivida, o sentido deste vida e os significados de suas relações com outros planos da realidade.
Está na hora de nos darmos conta de que aprendemos e de que construímos conhecimento essencial a respeito do bem, do belo e do verdadeiro – e, mais do que tudo, de suas interconexões – com os nossos sonhos e com as nossas ciência, com os devaneios e com os conceitos (Gaston Bachelard), com o mito e matemática, com a física e a filosofia, com a filosofia e a religião.
Assim como entre uma ciência e uma religião não existem desigualdades de saber, mas diferenças de vocações na criação de compreensões, assim também entre a “minha religião” e as “dos outros” não existem quantidades desiguais de verdades, mas qualidades diferentes de viver a experiência de crer em uma verdade e de praticar uma crença.

artigo décimo
Não existe lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. O movimento transdisciplinar é em si transcultural.
A cultura humana observa a mesma relação da Vida e do Universo. Tudo o que forma um todo não dissolve a identidade das partes que, interativa, interior e inteiramente, o compõem.
Não existe um eixo central em qualquer plano da existência de onde os outros partam e ao qual estejam subordinados por qualquer tipo de hierarquia. Tudo são existências, são planos diferenciais, mas não desiguais da existência. São dimensões do existir em contínua interação e em uma inacabável recriação de totalidades integradas, não por coisas que coexistem, mas por feixes e por redes de movimentos de diálogo e intercomunicação.
De igual maneira, as culturas humanas são diferenciadas, mas não desiguais. São diferentes habitantes de um mesmo amplo círculo humano de criação passada e presente de modos de vida e de modos peculiares de sentir e de pensar a experiência da vida humana, logo, cultural.
Não há entre as culturas dos diferentes povos que compartem a Terra e a Humanidade uma hierarquia de realização. Uma escala-escada que iria da mais “primitiva” à mais “civilizada”, da mais “rústica” à mais elaborada”, da mais “popular” à mais “erudita” e, em linha direta, da mais “coerente, racional, científica e confiável” à mais “incoerente, irracional (mítica), a-científica e não-confiável”.
Não existe tampouco qualquer tipo de sucessão civilizatória no tempo, como uma trajetória de elaboração cultural que fosse do “selvagem” ao “civilizado”, passando pelo “bárbaro”.
Se existe alguma evolução entre os seres vivos e entre as sociedades humanas, ela pode ser representada como vários rios, de vários tamanhos, volumes de água, ritmo e percurso, que por caminhos diferentes em uma mesma direção chegam em momentos diversos a locais diferentes de um mesmo grande mar, mais do representada como diversos afluentes que deságuam em rios que deságuam em um grande rio central que deságua no mesmo mar. Não existe o “grande rio” como o lugar do “branco”, do ‘ocidental’ e do “civilizado”. Só existe um grande rio se ele for toda a diferenciada humanidade.
Toda a cultura humana só é compreensível de dentro para fora. Ela só é tradutível a partir e através de sua própria lógica. Ela é o parâmetro único ou preferencial de sua realização.
As culturas mantém entre elas qualidades comparáveis através do valor único existente como o patrimônio de cada uma. As culturas não mantém entre elas quantidades de realização que faculte qualquer tipo de escala de posições por uma variação de desigualdades de realização. Por algo onde o próprio modelo da “realização cultural” está situado fora de cada cultura humana e está colocado nos critérios e nos valores de uma única, ou de um pequeno número de culturas - em geral “brancas” , “ocidentais” e de “primeiro mundo” - tidas como legítimas e hegemônicas. Logo, como modelos para as outras.

artigo décimo primeiro
Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração do conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar, e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos.
Todo o que ensina aprende com quem aprende.
Todo o que aprende ensina ao que ensina.
Toda a educação é uma vocação do diálogo.
O diálogo de cada pessoa com todas as instâncias de seu próprio eu, no corpo, na mente e no espírito.
O diálogo com o outro, com os seus outros, os que ensinam, os que aprendem. O diálogo concreto e vivenciado com a Vida de seu mundo cultural e com a natureza de seus ambientes de vida.
Saber é algo que transforma quem aprende a cada instante do gesto de aprender. Saber nunca é o resultado de uma acumulação de conhecimentos e de habilidades transmitidos por um outro, fora de um diálogo.
Saber é criar conhecimentos e é aprender a participar de situações e de processos ativos de criação do saber.
Aprendemos o tempo todo com o todo de nós mesmos, e é o todo da pessoa que somos quem se transforma a cada momento significativo do ato de aprender.
Uma educação transdisciplinar deve estar atenta a realizar-se como uma permanente oficina de experiências interativas de criação partilhada de saberes. Uma oficina de criação, de reflexão e de atividades postas em diálogo. Num diálogo onde o valor dos sentimentos, das intuições e da inteireza interativa de cada pessoa e de cada grupo da “comunidade aprendente” devem ser substantivamente levados em conta.

artigo décimo segundo
A elaboração de uma economia transdisciplinar é fundada sobre o postulado de que a economia deve estar a serviço do homem e não o inverso.
Aqui cabe lembrar a sustentabilidade.
Esta palavra deve ser uma das chaves de todo o processo econômico das relações pessoa-natureza, sociedade-ambiente.
Ela não tem apenas um sentido de “economia econômica”. Ao contrário, ela sugere e indica toda uma nova atitude relacional. Criar atividades econômicas dentro de uma ética de solidariedade absoluta entre pessoas e entre povos. Criar economias de comunhão fraterna para com a natureza e, não, de manipulação regida pelo interesse mercantil.
Em oposição a uma globalização da economia predatória e manipuladora de bens, serviços, pessoas e recursos naturais, pensemos em uma planetarização dos espíritos e das ações entre nós, seres humanos, e entre nós e a vida.
Em lugar da lógica da competição, o espírito da cooperação.
artigo décimo terceiro
A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, seja qual for a sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá levar a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma mesma e única Terra.
Uma tarefa urgente que nos envolve a todos: participar do esforço para que as desigualdades quanto à distribuição social e universal do poder, do capital, dos bens de uso e de troca, dos serviços e dos saberes seja reduzida a proporções cada vez menores. Seja assim reduzia e levada à progressiva extinção, em direção a uma igualdade de direitos de todas as pessoas, todos grupos humanos e todos os povos ao acesso a uma vida plena, fraterna e feliz.
Outra tarefa: em um mundo justo, igualitário, sustentável, justo, solidário e harmonioso, deixar que aflorem, se afirmem, dialoguem e se multipliquem as várias diferenças individuais, étnicas, culturais e de outros modos de ser e de escolhas de vida e de sentido da vida.
Uma ética transdisciplinar deve ser mais do que um repertório de atitudes de respeito ao tipo de mundo e de estilo de economia e sociedade em que desigualmente vivemos o presente momento e o horizonte próximo do futuro. Ela deve ir além. Tal como no processo de busca solidária e interativa do saber, ela deve resolver-se a uma partilha participante e responsável na tarefa comum de pensar criticamente o mundo em que vivemos e as possibilidades reais de sua transformação efetiva.
Somos livres e responsáveis não quando obedecemos às leis que outros fazem e aplicam, com justiça e equidade sobre nós, quem quer que sejamos. Somos livres e repensáveis quando assumimos tarefa social e solidária de partilhar do trabalho de criação de nossas próprias leis, de nossas próprias idéias, de nossos próprios mundos.
Compreendemos algo quando fazemos parte de uma dimensão do que está sendo compreendido. Assim, faço parte de um Mundo de cuja criação eu me sinto participante e, não, beneficiário.
Todo o diálogo é uma aventura de transformação.

artigo décimo quarto
Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na apresentação, que leva em conta todos os dados, é a melhor barreira às possíveis distorções. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado, do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às nossas.
A vocação transdisciplinar não pretende abolir os preceitos de rigor e cientificidade na prática social de criação de saber competente. Ao contrário, ela se obriga a recriar novas pautas, mais precisas ainda, e mais interativas e dialógicas do próprio sentido do rigor.
Saibamos sonhar, saibamos imaginar, saímos bailar conceitos e poetizar equações.
Mas que isto não seja nunca uma fuga. Uma fuga à aventura de um pensar sério e fecundo. Uma fuga diante da aventura de um pensar ousado e capaz de quebrar a todo o momento as barreiras posta à sua frente. Postas ali pelo próprio caminhar do saber humano. Ou postas ali contra ele, para que ele retorne a ser o que não deveria voltar a ser nunca mais.

artigo final
A presente Carta da Transdisciplinaridade foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, e não reivindica nenhuma outra autoridade além de sua obra e sua atividade.
Segundo os processos a serem definidos de acordo com os espíritos transdisciplinares de todos os países, esta Carta permanecerá aberta à assinatura de qualquer ser humano interessado em promover nacional, internacional ou transnacionalmente as medidas progressivas para a aplicação de seus artigos na vida cotidiana.

Convento de Arrábida, 6 de novembro de 1994
comitê de redação
Lima de Freitas, Edgar Morin, Basarab Nicolescu
relida e comentada em Campinas e na ROSA DOS VENTOS, no Sul de Minas
em junho e julho de 2001.
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[1] Este Congresso foi realizado no Convento da Arrábida, em Portugal, entre 2 e 6 de novembro de 1994. Assinam a Carta de Transdisciplinaridade as seguintes pessoas:Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu.

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